Monday, May 25, 2015

UNA

Sozinha ando comigo
e ouço o que me angustia.
Me abraço e caminho.
Seguimos  juntas,
nós -
Eu e ela mesma.
Somos eu,

 uma só.


Wednesday, May 13, 2015

Líquido

the full space from my time 
I see bleed and falling stars
all fooling around me 

And I can't contain all inside 


Inside me



Illustration by: Robert Gonsalves

Tuesday, April 28, 2015

Ostara

Me disse que já queria ir porque o vazio de instantes
lhe causaria ainda maior pavor que não viver o restante 
dos dias em casa.

Após um longo período andarilhante
Além d'lá

Ferida,
cansada,
queria molhar os pés na água
Pôr a cabeça ao vento
toda ao salitre do mar


Não faz nem tanto tempo,

e era isso que sempre fazia
Às tardes, ao relento
À lira
Óh tempo!


O tempo lhe trouxe de volta.

Cá estava aspergida
"espairante"

Lívida
como nunca antes.

Nasceu
Cresceu
Brilhou

E Atingiu seu "inalcançante" pulsar

Continuaria ali,

no céu,
brilhando 
como a Alma
que sempre lhe pedira.

Á noite, lá
 ela

está.

Friday, April 17, 2015

RASCUNHO - Alfa e ÔMEGA

O esboço das camadas de mim transpareciam em seus olhos.

Sim.
Sou contorno.
Extrato Forte.

Insana.
Insônia.

Sou isso sim!

Eu
Sou.


O motivo de suas patas imundas ainda tocarem o chão.
A fonte de luz que te traz alusão
A clave de sono na escuridão

O fogo do ápice trazida à paixão
A podreira da mente que transgride o Santo Graal 

A imensidão do seu minúsculo ser.


Eu
Sou.





Wednesday, April 15, 2015

Apenas um cão



Cecília Meireles

Subidos, de ânimo leve e descansado passo, os quarenta degraus do jardim – plantas em flor, de cada lado; borboletas incertas; salpicos de luz no granito eis-me no patamar. E aos meus pés, no áspero capacho de coco, à frescura da cal no pórtico, um cãozinho triste interrompe o seu sono, levanta a cabeça e fita-me. É um triste cãozinho doente, com todo o corpo ferido; gastas, as mechas brancas do pêlo; o olhar dorido e profundo, com esse lustro de lágrima que há nos olhos das pessoas muito idosas.

              Com grande esforço, acaba de levantar-se. Eu não lhe digo nada; não faço nenhum gesto. Envergonho-me haver interrompido o seu sono. Se ele estava feliz ali, eu não devia ter chegado. Já que lhe faltavam tantas coisas, que ao menos dormisse: também os animais devem esquecer, enquanto dormem... Ele, porém, levantava-se e olhava-me. Levantava-se com a dificuldade dos enfermos graves, acomodando as patas da frente, o resto do corpo, sempre com os olhos em mim, como à espera de uma palavra ou de um gesto. Mas eu não o queria vexar nem oprimir. Gostaria de ocupar-me dele: chamar alguém, pedir-lhe que o examinasse, que receitasse, encaminhá-lo para tratamento... Mas tudo é longe, meu Deus, tudo é tão longe. E era preciso passar. E ele estava na minha frente, inábil, como envergonhado de se achar tão sujo e doente, com o envelhecido olhar numa espécie de súplica.

              Até o fim da vida guardarei seu olhar no meu coração. Até o fim da vida sentirei esta humana infelicidade de nem sempre poder socorrer, neste complexo mundo dos homens. Então, o triste cãozinho reuniu todas as suas forças, atravessou o patamar, sem nenhuma dúvida sobre o caminho, como se fosse um visitante habitual, e começou a descer as escadas e as suas rampas, com plantas em flor de cada lado, as borboletas incertas, salpicos de luz no granito, até o limiar da entrada. Passou por entre as grades do portão, prosseguiu para o lado esquerdo, desapareceu.

              Ele ia descendo como um velhinho andrajoso, esfarrapado, de cabeça baixa, sem firmeza e sem destino. Era, no entanto, uma forma de vida. Uma criatura deste mundo de criaturas inumeráveis. Esteve no meu alcance, talvez tivesse fome e sede: e eu nada fiz por ele; amei-o, apenas, com uma caridade inútil, sem qualquer expressão concreta. Deixei-o partir, assim, humilhado, e tão digno, no entanto; como alguém que respeitosamente pede desculpas por ter ocupado um lugar que não era o seu. Depois pensei que nós todos somos, um dia, esse cãozinho triste, à sombra de uma porta. E há o dono da casa e a escada que descemos, e a dignidade final da solidão.

Friday, March 13, 2015

Marca-passo

we're drowning to the bottle
the end of the roof
where there's no footsteps


just

the falling

Thursday, March 12, 2015

Cerâmica de azulejos


ás vezes sinto falta dos meus sapatos de criança,
da minha insensatez juvenil,
dos abraços apertados 

dados depois
de sonhos mau digeridos,
interpretados

e daquela canção que minha mãe cantava pra serenar-me o espírito;

ás vezes sinto falta de não me preocupar com nada

e fazer de cada saída com a família
um acervo de boas lembranças
pra desembrulhar numa noite de lua cheia,

em que o sono não vem 

ás vezes eu lembro que já fui criança, 

e depois fiquei mais crescidinha,
depois mais "mocinha",

depois adolescente,
e agora adulta

e isso me faz lembrar que um dia serei idosa,
com olhos enrugados,
sorriso cansado,
e mechas pretas desfiadas por entre os fios de meu cabelo prateado.