Tuesday, November 4, 2014

Midas

Se tem algo que eu odeio é esse povo que vê flor em pedra. Planta de pedra é limo, aquela coisa inerte, que mais parece morta. É trepadeira, aquele ser asqueroso, grudado à pedra, chupando o chão, se alimentando da imundície e se tornando parte integrante da imundície.

Explico. É que parece uma epidemia o olhar medíocre sobre o ser humano que elucubra sobre sua suposta beleza, seus supostos grandes atos. Se fala muito de calor humano mas ninguém vê que ao se tocar um ser humano se sente o mesmo do que se sente ao tocar qualquer objeto: um frio cortante e metálico. Um silêncio apavorante. E se, após tocarmos, tivermos a coragem de olhar nos olhos da criatura, mas tétrica se torna a imagem. Aqueles olhos amarelos brilhando de pavor.

Errar não é humano, o ser humano é que um erro, uma piada de mau gosto. Ora, não nascem flores nas pedras; arte, deus, liberdade, amor, política, compaixão, balelas! Só o que vejo sou eu, desamparado, cercado por esses amarelos.

Todas essas décadas vivendo minha vida. Trabalhando e produzindo. Colocando minhas mãos ao trabalho para produzir a minha paz, doando cada segundo e cada gota fria que sai de minha testa para comprar meu sossego, e o que ficou foram os pesadelos. Todas as noites mãos amarelas me roubam os filhos. Gigantescas picas de ouro matam minha mulher a pancadas no crânio, depois de estuprá-la violentamente. Eu, dentro de uma multidão de estátuas douradas tento andar sem me esbarrar em ninguém, mas um passo em falso e todas as pesadas figuras desabam em cima de mim e me esmagam. E mãos, mãos gélidas me tapam o nariz e a boca, me seguram duramente enquanto eu me debato até a morte.

Pesadelos. Esses dias eu tive mais um. Desses que, com o passar do tempo, você já não tem certeza de se você sonhou ou viveu. Eu estava deitado na cama pela manhã, e através da janela entravam os primeiros raios de sol do dia. A luz me tocava, mas eu me sentia frio. Tinha vontade de me espreguiçar mas não conseguia. Meus olhos estavam voltados para o teto branco, que naquela ocasião estava tingido com um reflexo dourado.


Luciano J. Fernandes

just saying

"i'm always drunk"

Monday, November 3, 2014

Embaçado

loucura a vácuo
espaço cheio.
pensamentos 

esvaídos
de

um corpo embaralhado

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tento, penso, faço

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Depois de um tempo

depois dos fatos.

tudo se arruma, 

de lado a lado.
do fundo 

de dentro
de fora..

de fato,

se acalme...


Friday, October 24, 2014

Stairway

sem pressa...

As coisas acontecem, 

a vida segue
como deve ser

O Tempo deixa de parecer carrasco
e torna-S e
melhor amigo

A fotos amareladas 

param de ser motivos pra saudosismo
e transformam-se em 

registros de cada degrau que seguimos

Mais um aspecto,
um espectro
O Septo
 por onde aspiramos


A vontade de viver

Os anos
que virão.



Wednesday, October 22, 2014

DENTRO DA MATA


"O ar estava tão denso que de vez em quando era preciso espantá-lo com as mãos, como se faz com mosquitos. A gente estava suado como se tivesse tomado chuva. Mas claro que não iria chover ali. Entramos num dos barquinhos salvadores.

Estava com a maior cara de que os donos tinham acabado de sair. Não podíamos esperá-los para que dessem permissão. Peguei a água que estava em um cantil jogado ali e dei para ela beber. Molhei um pano com o resto da água do cantil e dei pra ela morder. Afastei tudo da frente, e vi que o barco estava, como imaginado, limpo.

Não muito tempo depois, ouve-se o choro, cantando junto das cigarras.
Enrolei o bebê com minha camisa. Lavei na água do rio, para cortar o cordão, uma faca que estava no barco. E choramos os três.

Observamos as coisas dos donos do barco. O cantil, agora vazio. A faca, novamente lavada. Um cesto vazio. Uma mochila que não tive coragem de abrir. Sandálias de couro. Um radinho de pilha.
Ao sair, a gente deixou um pouco do pouco dinheiro que tinha e um bilhete: 'Obrigado pela manjedoura'."


Luciano J Fernandes

Wednesday, October 8, 2014

without you I'm like this:


Sala de estar

Enquanto te esperava por detrás daquela porta
Sua ausência me sugava a memória espalmada

e sem respostas para o que parecia ser:

Estribilhos coloridos

Lantejoulas azulejos!
Outros tantos poucos segredos.


Me pergunto se te conhecia a ponto de 
nos reconhecermos assim no escuro

Mesmo antes da resposta,
Reformulo
a pergunta 


Pra não soar descrédula, ou coisa assim

...

Talvez não estivesse
Por detrás da porta certa
Esperar você, seria contradição

Não nos esperamos.

Afinal,
somos


Somos. E que beleza isso tem!

Somos
nossos 

longos
novos
laços
em

um
só
nó
.